Ontem o Kaiser fugiu pela última vez.
É difícil lembrar-me de como era a vida antes do Kaiser mas lembro-me do dia que ele chegou. Numa caixa de papelão toda vomitada e meio tímido. Estive o dia todo a brincar com ele na garagem dos fundos e quando chegou a noite ele já saltava a grade da água.
A primeira vez que fomos de férias ele entrou em coma por não querer comer mas ainda teve forças para saltar quando nos viu. Mesmo quando ainda só comia soro.
Ele adorava passear mas enjoava a andar de carro. Era uma questão de tempo até ter a Golf vomitada. Uma vez olhei para trás para a mala da carrinha e ele estava com as bochechas inchadas e de repente BLAAAARGH virou o barco para todo o lado. Conseguia sempre encontrar um buraquinho que não tivesse plástico protector.
Esta foto é a última que tenho dele (Kaiser da esquerda) no parque lá de Pevidém. Em 2008 o Kaiser malhou ao rio neste parque!

Há muitos anos levei-o à Penha onde ele tentou espetar o foguetão vermelho nas costas da cadela da minha amiga Sandra. Trancada perpendicular, ele tem a patente.
Passado algum tempo andava eu com ele ano meio do monte por Pedome e comecei a gritar-lhe “Kaiser!! Anda para aqui! Sai da beira desse carro!!” e ele disse – “Aaaaah… Agora percebi!” – e a partir dessa altura começou a fugir regularmente. Ele dizia que só ia buscar sacos do lixo para pôr debaixo da laranjeira mas bem sei que era desculpa.

Ele teve uma vida longa e pacífica, tinha um campo enorme com vista para o rio e morava numa garagem. Nos últimos anos quando começava a chover ia para o campo e ficava lá horas e horas. De vez em quando ainda ouvia a minha mãe a meio da noite “Kaiser! Sai da chuva! Vai para a garagem morcão!”
Estou com saudades dele. Nunca mais vou ver o meu amigo de infância… 